Recorte paulistano

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012



No metrô, voltando pra casa, só pensava em vencer as quatro estações que faltavam até a Sé e percorrer o caminho, ainda longo e demorado, rumo ao paraíso. Tenho esse hábito: entro no metrô e fico contando as paradas até a hora de descer... E assim estava: "Bresser, Brás, Pedro II, Sé", "Brás, Pedro II, Sé"... quando as portas do trem se abrem e uma senhora entra. Atrás de si, um carrinho de feira.

Já conhecia a cena. Já tinha percebido que alguns moradores de rua, no afã de preservar um mínimo de elo com a civilidade, tinham esse costume de alojar seus pertences em carrinhos de feira para melhor transportá-los. Vida portátil, em eterno trânsito pelos cantos da capital.

Sabia também que ali estavam acondicionados todos os pertences daquela mulher, em idade avançada, cujos trajes surrados e a falta de alinho nos cabelos não deixavam margem à dúvida. "Podia ser minha mãe!" e um instante de horror me invadiu o coração. Qual seria a história? Que derradeiro estopim havia desencadeado tamanho desfecho? Como ela vive o dia-a-dia? E, enquanto a personagem esperava inerte pelo seu destino, ia me perdendo, consumida de indignação.

Percebi que havia um garoto ao lado da senhora, garoto mesmo, vinte e dois anos, no máximo. Boy, com direito a boné virado e MP3 nas alturas. Ele também a olhava. Não de modo esquivo, protegido por duas fileiras de pessoas, mas direta e insistentemente. "Para de olhar! Não tá vendo que é constrangedor?". Mas ele, imune aos meus pensamentos, não desviava de foco. Ficou assim até quase a terceira estação, a que daria salvo-conduto à liberdade. Chegaram a fazer contato visual, um relance apenas.

E foi aí que aconteceu. Finalmente, o vagão freia na Sé e as portas se abrem. Em um movimento rápido, que daria inveja ao mais hábil ninja, discreto e de soslaio, ele tira (vai lá saber de onde) uma nota de R$ 10,00 e a escorrega para a mão da senhora. Ela a recebe e o olha no mesmo instante de tempo. Os dois não dizem nada, não esboçam reação. E, então, ela sai do trem como se nada tivesse acontecido.

Lá atrás, sacudida pelo inesperado, já não contenho minha emoção. Passo por ele, a caminho da porta e ensaio um sorriso. Na plataforma, ainda procuro pela mulher, desaparecida. Penso: "Foi por aí" e a liberto de seu malfadado enredo imaginário. Tudo rápido, no tempo de três paradas, no compasso da metrópole frenética, cúmplice.

Há uma máxima, de origem supostamente budista, que afirma que o segredo da felicidade é ter apenas o que se pode carregar. Em meio a tanto desamparo, não sei se é o caso. Mas, me lembrei de Drummond e sua flor do asfalto. E também da letra de uma música de um compositor italiano, menestrel de primeira, que diz assim: "Dai diamanti non nasce niente, dal letame nascono i fior."

Parabéns, São Paulo.






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8 comentários:

Milton T disse...

Letícia, nos convivemos no nosso dia a dia com figuras deploráveis , mas histórias assim, me dão a certeza que a vida vale a pena.

Abs

LETÍCIA CASTRO disse...

É verdade, Milton. São esses pequenos recortes que nos tiram da dureza do cotidiano de São Paulo. Ainda há muita vida por trás do cimento, não é?

Obrigada pelo seu comentário!

Abração!

Lucas Catta Prêta disse...

Lêêê!

Que liiiiiiiiiindo! Nossa, amei, amei, amei. Olha, você é uma desperdiçada com sua habilidade com as palavras, viu?

Olha, é lindo ver esse seu amor por essa cidade, de fato, encantadora.

Gostei de uma coisa que escutei agora há pouco, na CBN. Com todos os problemas que têm, nossa relação com São Paulo, tanto dos que já visitaram, ou daqueles que vivem aí, é de muito mais amor do que ódio. E ela, sempre, retribui do jeito que melhor sabe: de braços abertos, pronta para abraçar mais um a se perder de amores.

LETÍCIA CASTRO disse...

Prontinho, taí o culpado pelo post. rs

Lu, uma palavra procê: veeeenha! rs

Beijão querido!

Jorge Fortunato disse...

Brilhante!
Chapeau!!!!!

LETÍCIA CASTRO disse...

Je vous remercie, monsieur!

Bejim!

Mayara Caparroz disse...

Lê, que lindo!

São tantos os fatos que acontecem no nosso dia a dia que, se pararmos para prestar atenção, enxergaremos com clareza e exatidão como realmente são e que na maioria das vezes passam despercebidas aos nossos olhares.
Felizmente, nesse mundo em que vivemos, onde qualquer "carinha" em um metrô pode ser um assaltante ou coisa do tipo, existem algumas raras exceções que acabam nos surpreendendo e são essas raras exceções que merecem ser respeitadas.
Devemos aprender a ter não só compaixão pelo próximo, mas aprender a nos colocarmos em seus lugares. Todos somos especiais!

Um grande beijo, comadrinha! :)

LETÍCIA CASTRO disse...

Comadrinha linda do meu coração,

Você tem toda razão em sua opinião tão madura, apesar de sua pouquíssima idade. Compaixão pelo próximo é a qualidade mais cara de um ser humano e o que previne todas as mazelas que, infelizmente, ele é capaz de cometer.

Você, com certeza, é especial, viu?

Beijoquinhas!

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Quem sou eu

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Jornalista, paulistana, produtora de conteúdo em português, inglês, espanhol, italiano e francês, que encontrou na Web 2.0 o meio mais propício para se proliferar. Editora-chefe da MasterNewMedia Brasil, editora de conteúdo da MasterNewMedia Español e responsável integral pelo BABEL.com. Assessora de comunicação de Marcos Silvestre. Apaixonada por música, esta ariana morre de vontade de ganhar um Romero Britto bem grandão para pendurar na sala. Mas, na maior parte do tempo, sofre mesmo é de um amor incurável pela vida.

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