
Do que você é feito? De onde vem e do que é constituído? Já parou para pensar que, muito além de informação genética, você tem hábitos, gestos e maneiras de seus pais? Já fez o teste de ficar se olhando no espelho para tentar reconhecer quais traços tem de um e de outro? Eu já, e olha que no meu caso é um pouco mais complicado. Os olhos são da minha mãe, sem dúvida (o mau gênio também...). Dizem que a boca é pequena como a do meu pai e tenho o ar dele, mas o melhor elogio que ja recebi na vida em relação a ser parecida com ele foi quando ganhei uma queda-de-braço com um vendedor de móveis, que me disse: você é filha do "Seu" Ronaldo mesmo!
Durante bom tempo da minha vida, meu pai foi vendedor de livros. Jurídicos. Se isso não me influenciou, não sei mais o que poderia, pois ao meu tempo virei jornalista. E me casei com um advogado. Minha mãe foi quem me ensinou a ler, antes de entrar para a escola. E os dois foram moldando meu caráter e meu modo de ser, de agir. Logo de cara, me ensinaram que eu tinha que me virar sozinha. Nunca me esqueço de um dia, numa velha infância, em que briguei com um garoto e ele me bateu. Briguenta como eu só, não entendo por que não me defendi naquela ocasião, voltei para casa chorando e contei tudo para a minha mãe. E ela me disse da porta de casa mesmo, sem me deixar entrar: volta lá e vai resolver seu problema com ele. E se ainda voltar chorando, eu te bato! Doce jeito espanhol... Voltei, contei tudo indignada ao pai da criatura. Quebrei a cara, mas saí fortalecida.
Morando em São Paulo, a gente aprende a se virar ainda mais e logo cedo. Nunca me lembro de meu pai e minha mãe me levando aqui e ali, tinha que ir de busão mesmo. Comecei a trabalhar aos 14 anos e nunca mais parei, em nenhum momento de minha vida, nem quando me preparei para ficar sem trabalhar por algum tempo quando mudei radicalmente de profissão e abracei o jornalismo completamente. Vício de quem ficava com vergonha de faltar à escola, de tirar nota baixa ou de ter que "implorar" dinheiro para os pais para comprar bobagens (o sermão não compensava). O jeito era me virar sozinha mesmo, então logo comecei a trabalhar e as coisas foram acontecendo.
Minha mãe costumava dizer que eu sou tão independente que nem mamei na teta dela. Teta mesmo. Acho que ela queria ter essa sensação do animal que extrai o alimento do próprio corpo para a sobrevivência da prole. Vai saber por que não mamei em minha mãe, mas dizem que eu segurava com firmeza a mamadeira. Tinha pressa talvez. De crescer, de fazer tudo o que eu tinha e precisava fazer na vida. Tanta coisa para aprender e fui trilhando o meu caminho, correndo um dia atrás do outro. Me parecia muito feio ficar dando trabalho para os meus pais, ficar precisando, importunando a eles e é claro que o fiz várias vezes, mesmo quando pensei que estava contribuindo.
O fato é que, depois de mulher feita, estou aqui há mais de um mês na casa dos meus pais, que moram em outra cidade. Precisei deles sim. Um problema técnico (meu pc pifou e não tinha ninguém que pudesse me emprestar outro até o conserto) me trouxe de volta para cá para uma longa temporada. Voltei sem jeito, pois fazia pouco tempo que tinha estado com eles e ficar outra vez na sua casa e por mais tempo ainda não me parecia muito confortável. Mas, como o que não tem remédio... fiquei e fui ficando e hoje, no último dia do ano, entendi por que Deus preparou que eu viesse.
Deus preparou... Minha avó paterna sempre dizia isso e ela tinha razão. A reviravolta que aconteceu na minha vida nesses 30 e poucos dias já estavam escritas sim. Mãos muito especiais me trouxeram para o colo de minha mãe e de meu pai mais uma vez e, como dedos invisíveis, foram moldando a argila que me forma como quando minha mãe ainda me esperava. Meus pais pegaram essa mulher grande, que estava em cacos, sem direção, e a colocaram de pé de novo. Resolveram cada pendência em minha vida diante da minha impotência, pois eu vim cansada, física e espiritualmente. Quando se tem 36 anos, algumas coisas já nos cansam mais do que antes e a força de lutar às vezes arrefece. E eu me deixei levar e permiti que o meu "velho" e a minha "velha" (eu vou ouvir por isso) tomassem a frente e cuidassem de mim. Não sem dor, pois sou difícil de aceitar ajuda, se bem seja um aprendizado que estou incorporando a cada dia. Mas, me entreguei. Cheguei engatinhando e só batia contra a parede. Hoje já consigo andar e estou louca para conquistar o mundo de novo, como se viver esse 2010, que chega tão cheio de possibilidades, fosse descobrir o resto da minha vida novamente.
Talvez o seja e sinto que é. O que queria realmente dizer é que, se eles não tivessem me pegado no colo, mais uma vez, provavelmente eu não cruzaria esse 31 de dezembro assim mais forte. E é bonito ver que você pertence, que você tem a eles, que é deles, não importa o que aconteça, mas, principalmente, que você se vê neles. Nesse 2010 que se inicia, a única coisa que eu espero é que eu consiga tirar forças de onde não tenho, assim como os meus pais, para olhar para a vida de frente e ainda poder ajudar. Se alguma coisa fica é o que vejo nos olhos de minha mãe, meu espelho, e no espírito de meu pai, meu norte. E também o que quero para mim de hoje em diante, pois não tenho mais medo de seguir em frente. Nem de fraquejar, se for preciso.
Se você ainda tem os seus pais por perto, corra e dê um abraço neles. Beije-os muito, dê um telefonema, diga "eu amo vocês" em vez de alô, e não retenha mais um segundo esse sentimento no seu coração. Se eles já estão juntos do Pai Maior, então revista-se do seu reflexo e dê continuidade, através dos teus atos, ao exemplo de amor, força e dignidade que te deixaram. É só disso que precisamos para viver o resto de nossas vidas, a partir de amanhã.
Feliz 2010 a todo o mundo é o que deseja o BABEL.com!
Este texto é dedicado com todo o amor que sinto ao Seu Ronaldo e à Dona Silvia, meus heróis, minha razão de ser.
Imagem: BRFoto
Aqui se fala português. 



























