1º. de maio. Quinze anos depois daquele dia fatídico que mudaria a história do automobilismo brasileiro - mundial, pois se ele estivesse aqui, um certo alemão não teria se firmado nos pódios da Fórmula 1 com tanta folga, o Brasil avança mais um passo. Pra falar daquela época, basta lembrar que as manhãs de domingo prolongavam a excitação natural das noites de sábado, já que a festa se estendia um pouco mais com a farra que o Ayrton fazia nas pistas. Se não ganhava, a sua raça, fome e determinação garantiam que o brasileiro começasse a semana renovado, na crença de que sim era possível a um filho dessa terra triunfar e muito bem em solo estrangeiro. Não que não houvesse exemplos na terra de Pelé, mas Senna trazia gana nos olhos e uma única direção: ir em frente.
Eram outros tempos. Lançado há pouco mais de meses, o Plano Real ainda engatinhava e víamos um sociólogo fazendo milagres com a economia do país. Não era um sociólogo qualquer, não era um piloto qualquer, não seria um ano qualquer. O encadeamento dos fatos, ao longo daquele 1994, viriam comprovar que estava predestinado a acontecer. Não que a morte de Senna tenha sido responsável pelo êxito do plano econômico, não que ele tenha sido um mártir, não que ele não tenha sido um herói, não que naquele simbólico Dia do Trabalho não houvesse uma cruz naquela curva. Mas, não, não havia mesmo e a mais pura fatalidade conduziria os brasileiros a um estado de confusão e descrença – para não dizer revolta e inconformidade – com a sorte do jovem piloto que, descobrir-se-ia, para a surpresa geral, era um cidadão responsavelmente atuante e contribuía de forma larga com obras sociais significativas em seu país. Sempre de bandeira na mão.
O vazio esportivo que tomou conta de todos nós só se resolveria quase dois meses mais tarde, com o tetracampeonato nos Estados Unidos. Vinte e quatro anos depois, o Brasil, o país do futebol, símbolo da excelência no esporte no mundo todo, voltava a ser campeão. Uma geração inteira ainda não tinha tido o gosto de ver a seleção ganhar uma Copa do Mundo, eu entre eles. Vivia-se dos louros de México 70 e da gloriosa Seleção Canarinho que quase levou o título em 82. Mas, pra valer mesmo, nós todos nunca tínhamos visto. Era impossível não fazer referência ao gigante das pistas na vitória do futebol e a faixa aberta pelos jogadores, no meio do campo, fez tanto sentido como a taça. O brasileiro é movido à paixão e ali se conjugaram duas e respiramos aliviados. Parecia que a perda do herói de carne e osso finalmente se encaixava no nosso consciente e, com a auto-estima em riste, o brasileiro voltou a acreditar. E acreditou muito, acreditou tanto que mudou os rumos da história do seu país. É uma teoria, mas, particularmente, nada me tira da cabeça que foi tudo isso que fez o Plano Real dar certo e resolver, de uma vez por todas, os problemas históricos da economia no Brasil.
E por que falar de tudo isso hoje? Porque hoje, 1º. de maio de 2009, 15 anos depois, o Brasil dá mais uma guinada rumo ao seu destino. Não o destino do país nascido sob a luz dos conchavos monárquicos que nos entregaram a quase dois séculos de nadar e morrer na praia no cenário político e econômico mundiais. Não o destino do país mergulhado na escuridão da ditadura, financiada e abalizada pela Guerra Fria e os milhares de agentes da CIA infiltrados aqui, coordenando as ações de milicos desmiolados, abjetos sociais que nos submeteram à Idade das Trevas, versão local. Nós, os que sobrevivemos a tudo isso, carregamos cicatrizes e muitas mágoas e um rechaço veemente a esses tempos. Mas não desistimos nunca e somos chegados em chavões e enredos de novelas.
Nesse Dia do Trabalho, munidos de esperança renovada, os brasileiros mergulharam de novo, dessa vez na bacia de Santos, para dar a primeira picaretada rumo à extração do pré-sal. As expectativas são gigantes, como esse país – como aquele piloto – cheio de potencial, sempre potencialmente o maior, o melhor do mundo. Não creio que o brasileiro tenha pretensões imperialistas, ainda que nunca tenhamos estado nessa situação. Somos folgazões demais pra isso. No entanto, o que é nosso nos espera. E já vão séculos demais de letargia. Se o pré-sal vingará e corresponderá ao que se espera dele é assunto pra outro artigo daqui a alguns anos. Hoje, o que nos interessa é esse primeiro golpe no fundo do oceano. E esperar que os filhos dessa terra saibam utilizar da melhor maneira possível e em benefício próprio mais essa dádiva da natureza em uma terra que não se cansa de fazê-las brotar do nada. E que o exemplo de integridade e retidão deixado por Senna ilumine o caminho do que hoje se inicia. Espero, daqui a alguns anos, ter a sorte de escrever, também de maneira inspirada, sobre mais um simbólico 1º. de maio. Que seja bem-vindo.
Aqui se fala português (com muito orgulho)