De qual Michael Jackson você vai se lembrar?

sábado, 27 de junho de 2009



I just can`t, I just can`t, I just can`t control my feet...
Ninguém conseguia. Nem eu mesma, sozinha na sala de casa, com o som nas alturas, conseguia controlar os pés no alto da minha infância. Criança sabe das coisas e era ouvir os primeiros acordes de Blame it on the boogie e eu enlouquecia. O Michael Jackson que fica para mim é o desse tempo, em que a música era a força motriz de tudo. Music and him.

Mas e você? De qual Michael Jackson vai se lembrar? As opções são tão múltiplas quanto complicadas. Do garoto prodígio, mega talentoso da década de 70, que ofuscava os irmãos no palco e não deixava dúvidas quanto a quem era a galinha dos ovos de ouro da família, até o adulto seriamente perturbado sem o controle de si mesmo, Michael se reinventou uma e muitas vezes. Sempre pelo motivo errado. Se antes foi a vítima, empurrada pela figura paterna, de quem afirmou o próprio Michael, em 2003, sofrer "abusos" (entenda-se: o pai batia nele e nos irmãos, se erravam os passos das coreografias dos sucessos dos Jackson 5) e, por conseguinte, fez com que o garoto, ainda na primeira idade, percebesse que o talento inato poderia trazer alguma estrutura à família, conforme crescia, Michael aprendeu a usar bem a máquina do show biz a seu favor e transformar-se em um super pop star, gerando cifras astronômicas com recordes de vendas de discos.

O que mais rendeu em toda a história da indústria fonográfica, Thriller, atingiu a casa das 109 milhões de cópias vendidas. Aliada ao gigante lucro fonográfico, toda a estrutura comercial sempre esteve a sua disposição: concertos gigantescos pelo mundo, videoclips de vanguarda com o melhor da produção cinematográfica, as melhores cabeças dirigindo tudo, entre elas, seu inseparável amigo, o mítico produtor Quincy Jones.

Michael sempre teve de tudo, de sobra e a megalomania era servida no café da manhã. Para uma criança pobre, vinda de um lar necessitado, com mais oito irmãos na cola do seu sucesso, não era de se estranhar que Michael crescesse perturbado. Aliás, crescer era o tema. Ele se recusava. O mito de Peter Pan e a Terra do Nunca foram incorporados à realidade prática do quotidiano do artista. Michael era irrefreável e sabia manipular com o dinheiro: quem diria não ao maior astro do pop?

Numa proporção inversa, conforme as bizarrices aumentavam, diminuia a produção musical e a qualidade daquilo que o consagrou: o swing, o beat, a voz, a dança e o carisma poderoso no âmbito que dominava melhor: a música. Quando Michael era o artista, sabia muito bem o que fazer, não havia olhares fugidios às câmeras ou escondidos atrás dos óculos, nem um bando de seguidores, tão freak quanto ele mesmo, lado a lado com o artista, à espera dos milhões que podiam cair do bolso a qualquer instante. Esses "anônimos", geralmente pessoas muito jovens, inclusive crianças, também renderam bons episódios lamentáveis na vida do cantor. Inocentado da acusação de abuso sexual, a sombra da dúvida nunca deixou de permear a sua carreira.

Já no final da década de 90, o declínio artístico de Michael Jackson começou a se fazer presente. Sua última produção
Invincible (10 milhões de cópias), de 2001, não se equipara nem de longe ao sucesso financeiro do estrondoso Thriller (1982) ou da qualidade musical presente nos tempos de ouro dos The Jackson 5. De lá pra cá, tudo o que se soube foram escândalos atrás de escândalos e os fãs do mundo todo se perguntavam se algum dia teriam de volta o garoto brilhante que encantou o mundo com sua voz doce e seu moonwalk. Não deu tempo. Como sina, Michael morreu jovem e sem direito à grande volta à ribalta. Cobrança da vida. Blame it on the boogie.

Nesse exato momento, fica difícil imaginar uma trajetória diferente ou mais feliz para o artista. De qualquer maneira, quem mais perdeu nesse 25 de junho foi a própria música e é isso o que o mundo chora. Para mim, fica aquele garoto negro (acredite: ele era negro), de nariz chapado e black power, que me levava aos prantos cada vez que escutava Ben ou I`ll be there. Também fica o moleque encapetado que fazia minhas pernas tremerem até começar a pular ao som de Can you feel it? ou ABC. E para você?

Foto à esquerda: The Michael Jackson Fan Club

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17 comentários:

Tico Esteves disse...

Lindo, lindo, lindo! Lindas fotos e um texto maravilhoso, como sempre!

Olha, sinceramente seu texto trouxe tudo de bom que esse fantástico músico tinha e que se perdeu com o tempo. Não gosto da caricatura em que ele se transformou, também prefiro me lembrar desse moleque de olhos vivos e porque não de um lobisomem com cara de gato! Tudo, menos a triste figura em que ele se transformou.

Amei o texto, simplesmente incrível!

Te amo viu? (ô orgulho)

LETÍCIA CASTRO disse...

Eu tb te amo, vc sabe. ; )

Have I?

Antonio Regly disse...

Letícia,
Parabenizo-a, em primeiro lugar, pelo lindo e inteligente post. É primeiro que leio, voto e comento por tudo que escreveu. Não que eu seja importante, mas a sua notícia deu o destaque que gostaríamos.
Nasci um ano antes que Michael Jackson, de sorte que acompanhei sua carreira nas mesmas fases da minha vida.
O Michael Jackson que gostava de ver era aquele que cantava "ABC", por que era o que eu queria fazer como garoto e as músicas "I'll be there", "Ben", "One day your life", que marcaram os meus tempos de namoro.
Contudo, não podemos esquecer da linda iniciativa para que "We are the world" fosse gravada.
As boas coisas a gente não esquece.

Do amigo,

Antonio

Viviane Righi disse...

Brilhante texto, Letícia.

O MJ que fica para mim é o artista que enlouquecia multidões, que conseguia nos fazer dançar com suas músicas a qualquer tempo e que sabia fazer isso muito bem.

O outro MJ, perturbado como vc bem disse, para mim é uma grande decepção. Negar a sua cor, a sua raça, pegou muito mal, na minha humilde opinião. Por esse motivo, sentia uma certa pena dele. Aceitar-se é um dos primeiros passos para sermos felizes na vida.

Abração e até breve!

Arnaldo Reis Trindade disse...

Quanto ao post, algo fantástico, como você faz sempre amiga, quanto ao Michael?
É meio complicado falar dele, vamos falar das músicas dele e do homem dançarino e bondoso que ele era,vamos nos lembrar do menino que dançava e sapateava como ninguém, do homem que nos seus piores momentos como músico,vendeu dezenas de vezes mais do que a maioria dos músicos vendem no auge da fama, nos lembrar dos clipes dele com o Paul McCartney, do "We are the world", de Neverland, não como lugar onde ele possivelmente teria molestado crianças, mas de Neverland, Terra do Nunca, onde o mundo era melhor, onde o homem podia ser criança para sempre, quero me lembrar da voz de Michael e do sonho de ser Peter Pan, das coisas boas que ele fez.

abraços meu anjo

jorge fortunato disse...


Eu nunca mais esqueci a letra de Billie Jean ou Beat it, que aprendi no curso de inglês. É dessa época a minha melhor lembrança de Michael Jackson. Também não dá para esquecer o mega clipe de Trhiller. Vou guardar sempre essa imagem do MJ dos anos 80.

Wander Veroni disse...

Oi, Lê!

Como que gostaria de ter visto de perto essa época em que o pequeno Michael arrasava as multidões.

Lendo o seu texto - que está um senhor editorial, por sinal, fico a pensar nisso. A beleza desse artista se perdeu ao longo da vida dele. O MJ ousou ter a aparência supostamente perfeita e arruinou a sua própria vida.

A lembrança que tenho do jovem Michael é da fase de cor "branca", dos anos 1990, em que ficava acordado altas horas para ver a estréia do novo clip dele no Fantástico ou para ver o filme dele que passava sempre no SBT, na época do Natal. No outro dia todo mundo da rua comentava...rs.

Como vc mesma pontuou, quem mais perde com a morte dele é a música. Creio que o Michael que se foi na quinta-feira (25/06) era já o resultado de toda excentricidade desse artista ímpar no mundo.

Salve o rei do pop!

Comadre, lindo o seu texto! Tô aqui batendo palmas, viu!

Beijos

Guilherme Freitas disse...

Vou lembrar de todos os Michaels, do garotinho dos Jacksons 5 até este totalmente descaracterizado. Existe apenas um Michael Jackson. Beijos.

Renan Barreto disse...

Ai ai ai... Lê... o MJ é um dos seres mais controversos do universo. Eu realmente acho que ele era um ET assim como o Elvis. O talento deles era algo divino e que só se potencializa após a morte. Não era fã exatamente dele, mas reconheço e muito a sua importância para a música do século XX. O personagem em questão era louco? Sim, mas quem não seria? Imagina uma pessoa como ele? A saúde mental de uma pessoa assim é dificil de manter-se estável... Sinto pela falta dele e sempre lembrei dele como o garoto de ouro, mas sempre zoei as bizarrices do cara. Independente do MJ que imaginarmos, o cara conseguiu uma coisa... Botou nossos pés na lua ao invés do armstrong e do gagari. rsrs

BJO!!!

Ebrael Shaddai disse...

A que eu mais gostava de ouvir era Black or White...veja meu artigo sobre o Michael em http://memoriasdeebrael.blogspot.com/2009/06/michael-jackson-nao-era-uma-grande.html

carla m. disse...

Comadre,

Eu vou lembrar sempre da explosão musical que ele foi. Acho que no fim, memórias também são escolhas. Nada psicológico, estou sendo bem analista social, ou historiadora ao afirmar isso.

Pois é, mas como eu também sofro desse fenômeno, vou lembrar do artista que mobilizava meus primos mais velhos na minha infância, sempre com a expectativa de um novo sucesso que conseguisse superar Thriller. Vou lembrar do artista que todos tentavam imitar no moonwalk. Vou lembrar dele já desfigurado, branco, vindo ao Brasil no início da minha adolescência e se juntando ao Olodum, ou andando pelas ruas do Morro Santa Marta no clipe de Spike Lee. E claro, vou lembrar da criança que foi, e que só conheci melhor sendo adulta, nas festa de soul e black em que tocavam antiguidades como ABC.

Se com isso esqueço o ser humano cheio de problemas, polêmicas e esquisitices?! Não, apenas ele não me impactou.

Beijocas e parabéns pelo belo artigo!!!

Silvia disse...

Oi minha filha,

Parabéns pela homenagem prestada a Michael Jackson.
Interessante como as pessoas tem o dom de falar somente do que ele fez de ruim, esquecendo todas as coisas boas que eles fez, entre elas ajudar (39 foi esse o numero divulgado por um canal) instituições de caridade, o clip onde reuniu a nata dos cantores para ajudar um pais. Isso chama-se preconceito. Se ele fez o que fez consigo mesmo, ninguém tem o direito de julgar, pois Deus nos deu o livre arbitrio.
Michael obrigada, por tudo de bom que você fez pela música, pelos menos favorecidos pela sorte, para encurtar a distância entre negros e brancos, enfim obrigada por você simplesmente ter existido. Que Deus em sua infinita misericórida tenha reservado para você um lugar maravilhoso em uma terra chamada NA TERRA DA PAZ.
Beijos
Silvia

Ligia Gally disse...

Lele,

Sinceramente o mundo nao perdeu nada com a morte desse cara. No dia 25 de Junho, nao acredito que perdemos a musica. Ate onde eu entendo,ja faz mais de 15 anos que ele nao estava na industria da musica. O talento dele ja tinha morrido faz tempo..rs
Tudo o que nos restava agora era um child molester, weird, Freak Guy.
Ja foi tarde.
Deviamos falar da Farah. Essa sim lutou pela vida e merece nossos aplausos.
Beijos.

Anônimo disse...

Sempre me lembrarei do MJ na época de Thriller. Foi quando ele estorou e eu era um garoto que vivia com o Vinil tocando no som. Pena que nunca consegui fazer o impossível Moonwalk. Infelismente o idolo virou uma coisa esquisita, e as suas manias e a pedofilia acabou com asua carreira e com o idolo que ele era para mim. Mas respeitarei sempre MJ por ser o que ele foi em sua época de ouro!

Anônimo disse...

ANDERSON DIZ
DE NENHUM DESSES...

André Martins disse...

Que texto maravilhoso!

Não sou fã do Michael, mas respeito e admiro essa figura que já era uma lenda bem antes, muito antes, desse fatídico 25 de junho.

Confesso que fiquei decepcionado, realmente triste com a morte do Michael porque acho que ele teve uma vida muito infeliz. Ele proporcionou inúmeros momentos de êxtase a milhões de pessoas, marcou a vida de muitos, porém não teve a graça de mudar a própria. Existem muitas feridas que não cicatrizam nunca... é verdade. [clichezão, rs]

O que fica pra mim é aquela criança que você mencionou no fim do texto, Lê.. não porque eu tenha acompanhado essa fase da vida dele [fora de cogitação, sou de 88], mas pra mim fica a criança que ele nunca deixou de ser.. aquele menino que teve a infância postergada durante tanto tempo e teve a oportunidade de vivê-la quando adulto, ainda assim com toda a inocência e sinceridade peculiares de uma criança, atributos que contrastam com a maldade e perversidade dos homens grandes, tipo que ele tinha pavor de ser um dia.

Um beijo enorme!

Meg (sub Rosa) disse...

Letícia:
Esse seu post devia ser tomabdo como monumento: completo praticamente, informativo e bem-escrito (só não agüento mais insistirem na bizarrice de MJ, bizarro? vejam o Jack, the Ripper, o Ed Wood, aquele cara do FBI (Hoover)que se vestia de mulher , ah...) mas vc até que não insistiu nisso. MJ era suimplesmente ... um ser humano que ousou mudar seu destino, sua cor, diferente de muita gente que se acomoda e recalca. Nelson Rodrigues diz que se as as *FAMÍLIAS* dissessem o que realmente fazem sexualmente (e ponha aí incesto, estupros etc) "ninguém falava com ninguém". Se estou justificando MJ no caso de pedofilia - seja lá como for e se tiver sido ? Nunca, jamais faria isso. Até porque não julgo. E só vim aqui ler e continuei lendo porque esse post lembrou tudo e todos os MJ que eu lembrarei para sempre.
E MJ foi gênio. COMPLETÍSSIMO. IMPORTANTE. REVOLUCIONÁRIO. É imorrível, que gênio não morre. Tá lá junto a Hendrix, Elvis e James Brown e pouquíssimos outros.
Anyway, vc é ótima.
beijos
Perdoe o caps lock, sim?

Meg

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